O Ministério da Saúde baixou portaria incentivando postos
de saúde e hospitais a oferecer a técnica em todo o País. Em fevereiro, a
agência do governo dos EUA responsável pelas pesquisas médicas (NIH, na sigla
em inglês) reconheceu formalmente a meditação como prática terapêutica que pode
ser associada à medicina convencional. Em maio, o Ministério da Saúde
brasileiro baixou uma portaria em que incentiva postos de saúde e hospitais
públicos ao oferecer a meditação em todo o País.
Essas ações governamentais são sinais da tendência de carar
a meditação não simplesmente como prática de bem-estar, que faz bem apenas à
mente e ao espírito. Parar diariamente alguns minutos para se concentrar e se
desligar do turbilhão de pensamentos que ocupam constantemente a cabeça também
ajuda a manter a saúde física.
"A meditação é diferente da medicina convencional
porque quem cuida de você não é o médico. É você mesmo", explica a médica
anestesista Kátia Silva, que coordena as atividades de meditação no Hospital
Municipal Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo. Na cidade, 70% dos postos de saúde
oferecem atividades da chamada medicina tradicional, que inclui acupuntura, tai
chi chuan e meditação.
Relativamente recentes, as pesquisas começaram nos anos
70. Uma pesquisa com a palavra meditação no acervo online da biblioteca Nacional
de Medicina, do governo americano, traz 1.400 estudos científicos. Entre outros
benefícios, meditar previne e combate a depressão, a hipertensão arterial, a
dor crônica, a insônia, a ansiedade e os sintomas da síndrome pré-menstrual,
além de ajudar a reduzir a dependência de drogas.
Esses estudos mostram que a meditação reduz o metabolismo
- os batimentos cardíacos e a respiração ficam mais lentos e o consumo de oxigênio
pelas células cai. É isso que dá a sensação de relaxamento e tranqüilidade.
As mesmas pesquisas sugerem que prática também interfere
no funcionamento do sistema nervoso autônomo, que é responsável, por exemplo,
pela liberação dos hormônios noradrenalina e cortisol durante os momentos de
stress. Em quem medita, a duração dessas "reações de alarme" são mais
curtas. Dessa forma, a pressão do sangue e a força de contração do coração
ficam alteradas por pouco tempo, comprometendo menos a saúde.
Apesar de serem evidentes os benefícios, a ciência ainda
não consegue entender completamente como a meditação age no sistema nervoso.
"Uma das dificuldades é o fato de não serem possíveis testes com modelos animais",
explica a bióloga Elisa Kozasa, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Segundo especialistas, mudanças podem ser sentidas logo
nas primeiras semanas. A aposentada Maria Elza Lima dos Santos, de 60 anos, descobriu
a meditação no Hospital Vila Nova Cachoeirinha. Ela vivia com crises de pressão
alta, que passaram após quatro meses de práticas diárias. "Antes, eu era
muito nervosa. A cabeça estava sempre cheia de problemas. Aí a pressão subia.
Agora fico mais relaxada, sinto uma paz de espírito", conta ela,
explicando que no princípio teve dificuldades com a técnica, "Levei um mês
para aprender a me concentrar."
O obstetra Roberto Cardoso, autor de "Medicina e
Meditação - Um Médico Ensina a Meditar" (MG Editores, 136 págs, R$ 26),
diz que muitos profissionais de saúde ainda têm preconceitos. "Mas isso
deve mudar. A meditação começa a trilhar os passos da acupuntura, que já é um recurso
reconhecido pela classe médica."
No Brasil, a instituição que mais estuda o tema é a
escola médica da Unifesp, o que, segundo especialistas, ajuda a apagar a imagem
religiosa e mística que normalmente se tem dos meditadores. A meditação não
precisa ser necessariamente ligada a uma crença oriental. Para que a meditação
cumpra seu papel de medicina complementar e preventiva, o psicólogo José
Roberto Leite, da Unifesp, explica que ela deve ser diária e constante. "É
como comer ou fazer exercícios.
Não basta uma semana para que você se mantenha
saudável."
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